Apesar da extrema violência da situação histórica que estamos atravessando (ou provavelmente por causa dela), 2016 foi um ano muito feliz na minha relação com o teatro. Pela primeira vez na vida consegui ver dezenas de peças, acompanhar o circuito em Belo Horizonte, participar das conversas com alguma intensidade.
Dois fatores contribuíram pra isso: uma relação mais próxima com o Horizonte da Cena, espaço de crítica teatral com o qual tenho tentado contribuir sempre que possível; e meu casamento com uma atriz, que vive o teatro intensa e diariamente e por isso me instiga a tentar acompanhá-la em sua paixão. Não é muito do meu feitio, mas deixo aqui um pequenino agradecimento (tão insuficiente quanto inevitável) à Marina Tadeu, minha companheira de teatro e de vida, por um ano inesquecível nas plateias e fora delas.
Os breves parágrafos abaixo (sobre as cinco peças recentes que mais me impactaram este ano) são uma maneira de tentar contribuir para que essas experiências não se percam na volatilidade da memória.
Real, do espanca!
Da extrema volatilidade dos eventos cotidianos – essa que faz com que cada timeline seja convertida diariamente num túmulo precaríssimo, apto para sustentar o luto por algumas horas, mas incapaz de deter o fluxo inexorável do esquecimento – surge o combustível para o teatro, essa arte que, dentre todas, é a que menos combina com a morte. E, no entanto, é sobretudo de morte – dessa morte diária, frágil, veloz como um automóvel, um espancamento ou um tiro – que é feita a matéria dramática de Real. O gesto consiste em transfigurar essa imperdoável ligeireza em obra viva e pulsante, em recuperar o peso e a densidade de cada tragédia singular, em oferecer a cada evento uma chance de sobreviver transformado em cena.
Trecho da crítica publicada aqui: http://www.horizontedacena.com/o-insustentavel-peso-do-teatro/
O pão e a pedra, da Companhia do Latão
A herança de Brecht não poderia estar em melhores mãos. A Companhia do Latão encena os meandros da greve dos metalúrgicos em 1979 e nos oferece um dos mais contundentes e inventivos olhares sobre as contradições da história brasileira (a que foi soterrada, sem dúvida, mas também essa que se faz hoje, aos trancos e barrancos). Sem medo de brincar com a caricatura, sem um pingo de intelectualismo e sem a menor concessão à demagogia (três recusas praticamente impossíveis de reunir na mesma obra), a peça encara a espessura de cada personagem e nos faz flutuar junto com eles: a operária obrigada a se passar por homem na fábrica para sustentar o filho pequeno, o galã lutador e religioso, o pelego, a estudante, o padre, o fura-greve, o xis nove são superfícies móveis, elásticas, ao mesmo tempo luminosas (não há nenhum mistério insondável a habitá-las) e impossíveis de circunscrever a este ou àquele lado do espectro ideológico. Que uma peça aposte em abrir a caixa-preta dos dissensos da esquerda brasileira não é pouco. Que encare de forma tão frontal o fenômeno religioso no país também não. Que nos faça sonhar com um novo teatro popular, nas mãos de um elenco extraordinariamente talentoso e carismático, é praticamente um milagre.
Why the horse?, de Maria Alice Vergueiro e Grupo Pândega
À beira da morte, a veterana atriz Maria Alice Vergueiro encena seu próprio funeral. A experiência do espectador é inteiramente atravessada por um paradoxo brutal: a peça roça um dos limites mais abismais do teatro (sabemos bem que um dia, num desses fingimentos da morte, a atriz pode, efetivamente, morrer em cena) e, no entanto, rimos, gargalhamos, nos deleitamos com a inteligência e a graça de todos em cena, sobretudo de Maria Alice, seu corpo a desafiar a inexorabilidade do tempo, sua voz a saltar entre os desvãos da memória. A belíssima canção de Gil (“Não tenho medo da morte”) a embalar as selfies dos espectadores com o caixão ao final é a imagem derradeira dessa lambada fúnebre, na qual todos somos convidados a balançar o esqueleto.
The Gospel According to Jesus, Queen of Heaven, de Jo Clifford
Jo Clifford, mulher transgênero, reinventa as parábolas cristãs a partir de uma fricção entre a menos bíblica das subjetividades e o menos religioso dos mundos (o nosso, hoje). Vestida de branco, ela nos envolve com seu olhar generoso, sua voz calma e macia, e nos conduz à mais aconchegante das homilias. O que mais impressiona na peça-performance não é a desconstrução dos preceitos católicos, mas algo que aponta na direção contrária: de súbito, somos tomados por uma desconcertante sensação de alegria ao percebermos que sim, é uma missa. Uma outra, em que cabem todas, claro, mas ainda assim uma missa, que segue quase à risca a liturgia do rito embora altere o conteúdo alegórico de cada narrativa. O que está em jogo, afinal, é a possibilidade de inventar no teatro, em pleno 2016, um sentimento religioso: a beatitude.
Nós, do Grupo Galpão
Os estranhos e fascinantes diálogos melopéicos de Marcio Abreu encontram um terreno ao mesmo tempo improvável e certeiro no seio de um grupo veterano em processo de autorreflexão. É impossível olhar para si sem a mediação de um outro, e é por isso que um “nós” só pode surgir da fricção com um olhar estrangeiro. O resultado é uma cena-refeição sobre a qual flutuam nervosamente algumas das mais angustiantes contradições da condição do artista em nosso tempo, que atravessam as vozes, descem em vôo rasante sobre os corpos, constroem e dilaceram as imagens. O encerramento excessivamente apaziguador é um fio solto de consenso em meio a uma profusão dissensual muito mais instigante, mas não é capaz de arruinar o que vivemos até aquele momento. “Nós” é o Galpão inteiramente fora da casinha e é, ao mesmo tempo, uma viagem às entranhas do Galpão. Mas como não poderia deixar de ser, é sobretudo sobre nós, que aqui estamos, imersos nessa espera sonolenta e vil.