A alegria solar e musical da véspera da felicidade interrompida bruscamente pelo silêncio da fuga noturna. Sequência inesquecível: o ruído surdo dos passos, as sombras expressionistas, a buzina que dispara mas não acorda ninguém. Depois do crime inominável (vicious assault, dizem eles, nunca rape), a protagonista nunca mais será a mesma: vítima que foge e se esconde como criminosa, o rosto outrora alegre agora é puro medo; a vivacidade esperançosa deu lugar ao desespero errante. Mas o filme será também para sempre assombrado, e o acontecimento dramático é acompanhado de uma ruptura na economia figurativa: cada carimbo burocrático agora soa como um tiro ou uma máquina de moer gente; cada proximidade masculina adquire o aspecto de uma ameaça letal. A mise-en-scène de Ida Lupino quase sempre evita a ênfase, o close-up, a sobredramatização: a violência que contamina cada plano de conjunto – e, de forma brutal, a experiência do espectador – é ainda mais intensa porque surge no bojo de encenação sóbria, implacável. A ação mais cotidiana, o movimento mais corriqueiro tingiu-se de um alvoroço de desordem. O mundo inteiro tornou-se o palco da iminência do desastre; o filme inteiro tornou-se um deserto que treme. E há sempre algo que perturba e fere na superfície árida de cada plano.

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